domingo, 13 de abril de 2008

Mais do mesmo

Outro dia uma pessoa me falou que leu no jornal duas notícias conflitantes na mesma semana, que demonstrariam como o povo brasileiro está precisando de desenvolvimento.
Ambas as notícias foram na Folha de São Paulo. Eu, acompanhando o raciocínio dessa pessoa (que não é hipotética), li apenas as manchetes, pois não sou leitora da Folha. A primeira notícia era de segunda-feira passada, e dizia que 74% da população da cidade de São Paulo é contra o pedágio urbano. A segunda notícia foi publicada no dia seguinte pelo mesmo jornal. Dizia: "Empresa se prepara para o pedágio urbano". A empresa era a Camargo Correa.
Bom, o que eu pensei na hora foi: Se o povo está contra, é porque não agüenta mais que todas as soluções para os problemas de São Paulo oneram o contribuinte, e que não agüentamos pagar mais taxas. Se a Camargo Correa está a favor, é porque está vislumbrando alguma possibilidade de lucrar com isso, e o fato de 74% da população estar contra a medida, não significa absolutamente nada para os gestores da empresa, para a Folha de São Paulo, e para os funcionários públicos que estão por trás disto.
Mas a conclusão da pessoa não foi essa. Para ele, a empresa sabe que o pedágio urbano é bom, e o povo não sabe. Que o conflito das notícias é uma prova de que o povo precisa ser instruído. Que a empresa Camargo Correa sabe o que é bom, porque é bem informada, e o povo não sabe, porque é burro.
Tenho acompanhado alguns debates sobre o trânsito, mas prefiro aqueles em que há especialistas envolvidos. Especialistas no trânsito de São Paulo são pessoas que moram em São Paulo, e que trabalham diariamente estudando o trânsito de São Paulo e suas soluções, em comparação com o de outras grandes cidades. São pessoas inteligentes e bem informadas, vinculadas à USP. Dos debates que assisti, nenhuma delas em nenhum momento defendeu o pedágio urbano.

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